Busca
 
 
 
Skip Navigation LinksHome > Comunidade Solo > Sua Experiência > Por que subir uma montanha? "Porque ela está lá".
 
     
  Por que subir uma montanha? "Porque ela está lá".  
  Marcelo Bellon  
     
 

Muitas vezes perdemos o rumo de nossas vidas. Por força e pressão de trabalho, escola, relacionamentos, acabamos por alterar o nosso modo de ser e de viver. A rotina, as vezes quase que imutável, faz com que não percebamos que isso vai acontecendo e vai minando nossas forças de reação. E isso só trás tristeza e cansaço com a vida.
Não posso reclamar da minha. Na maioria do tempo sou feliz com o que tenho e com o que tento buscar.

Mas eu ainda sentia um grande vazio, uma tristeza às vezes inexplicável, um sentimento de derrota, de medo e de fraqueza. Eu estava com uma necessidade enorme de fazer minhas atividades ao ar livre, de conhecer novos lugares e pessoas, de colocar novamente meu corpo onde eu gosto que ele passe um pouco de seu tempo: no limite físico e mental, e quem sabe até mesmo um pouco além disso só para ter mais graça. Eu sou do tipo de pessoa que não consegue ficar quieto, que se incomoda com a mesmice das coisas.

Muitos perguntam por que eu sempre quero provar algo, me desafiar, mostrar a diferença que posso fazer. Mas isso não é verdade. Minha busca é apenas pela felicidade e fazer o que eu gosto. O resto é pura conseqüência.

Uma bandeira de todos

Em 2007 teve início o Projeto Bandera Al Cielo. Nele, um grupo de atletas muito especiais participaria de eventos únicos e desafiadores, onde cada um mostraria suas capacidades. O que existia de único entre esses atletas é quem todos tinham diabetes e que todos, mesmo assim, tinham destaque nos esportes que faziam e dentro da comunidade de pessoas com diabetes.

Um dos eventos do projeto era a comemoração do Dia Mundial do Diabetes (14/Novembro) de 2008 com uma expedição de alta montanha para o Cerro Vallecitos, que fica próximo a cidade de Mendoza, na Argentina, com 5500m de altitude.

A data não era propícia para mim em razão do cronograma de aulas e provas da faculdade. Eu já tinha descartado minha participação em razão disso. Mas eu estava muito incomodado, com problemas, reais ou imaginários, e uma grande vontade de fazer as coisas que me faziam sentir mais vivo.  E se não fazemos as coisas na vida que nos dão prazer, nossa passagem por este mundo fica totalmente sem razão. Então ... Vamos para a montanha!

Com minha resolução e aceitação de minha participação por parte do coordenador, o uruguaio radicado em Buenos Aires, Abayuba Rodrigues, comecei a preparação. Foquei minha preparação física para a montanha também. Além de treinar para as ultramaratonas, mesclava algo diferenciado que poderia me ajudar na montanha. Também tive que rever meus equipamentos e adquirir roupas específicas, pois esperávamos temperaturas de até mesmo 30ºC negativos.

No dia 08 de Novembro já estava em Buenos Aires. Me encontrei com os outros atletas selecionados para este evento: Alexei, também do Brasil, o próprio Abayuba, e o Anibal, argentino. Éramos 2 brasileiros, 1 uruguaio e 1 argentino.

Já no dia seguinte, eu, Alexei e o Anibal seguimos viagem até Mendoza, distante 1000 km da capital argentina. Fomos dirigindo a caminhonete que seria utilizada para o transporte nosso e dos equipamentos até próximo da trilha que nos levava as montanhas. O Abayuba só seguiria a noite, de avião, pois tinha de cuidar de seu filho que havia nascido a poucos dias. A viagem foi bem tranqüila.

As estradas eram geralmente de pista simples, retas, planas e com pouco movimento. O detalhe era não se descuidar do combustível, pois existiam trechos com mais de 150 km sem um ponto para reabastecer. Nós acabamos errando isso uma vez e tivemos de voltar para a cidade anterior e reabastecer.

Neste mesmo dia, a noite no Hostel onde estávamos hospedados, já conhecemos outras pessoas importantes para a expedição: o Dr. Martin, que era nosso apoio médico na cidade no que fosse necessário, e Pablo, nosso guia de montanha que tentaria nos levar até o cume do Vallecitos. Fizemos todos a checagem dos equipamentos que tínhamos e o Pablo disse que estavam perfeitos para a expedição.

No dia seguinte, 10/11, segunda-feira, o Pablo nos encontrou no Hostel e fomos fazer as últimas tarefas antes de seguir para a montanha. Fomos fazer a locação dos equipamentos faltantes (botas duplas para neve, por exemplo) e também uma rápida consulta com o Dr. Martin para medir a pressão, peso etc.
De Mendoza até Vallecitos, que é o nome também de uma estação de esqui, e onde a caminhonete ficaria estacionada enquanto estivéssemos na montanha, foram aproximadamente 1h30. Saímos de 700m e fomos a 2900m. Em Mendoza a temperatura era de alto verão, próximas aos 30º; em Vallecitos, já estávamos abaixo de 10º.

Bem devagar ...

Partimos então para nossa tão esperada montanha. O Pablo ia nos orientando para como caminhar e não usar energia desnecessária. Em alta montanha deve-se caminhar lentamente e com pequenos passos. O ritmo deveria ser, calculo eu, entre 1 e 2 km/h. E não tinha como andar mais rápido que isso mesmo. O primeiro acampamento estava a 3 horas de caminhada e com uma altitude de 3.300m. Para mim foi bem difícil, sentia muitas dores nas costas, tendo de parar a todo instante para descansar. Descobri depois que minha mochila estava mal regulada e em vez do peso estar na faixa abdominal, onde os quadris suportariam a maioria do peso, estava levando tudo nos ombros. Com todo meu equipamento e parte da barraca que usaríamos, eu devia estar carregando uns 25 kg.
Chegamos em Piedra Grande e logo montamos o acampamento. Eu e o Anibal fomos responsáveis por buscar a água para fazer o jantar. Logo descobriríamos que uma das tarefas que mais faríamos na montanha era buscar água e aquecê-la.

Já ali começamos a sentir e aproveitar a maravilha da natureza que é estar em alta montanha. Silêncio, paisagens exuberantes, neve, pedras. Parece ser um pouco monocromático, mas o azul do céu fazia o contraste. Já comecei a esquecer das pressões do dia a dia. Não tinha que atender telefone, ler e-mails, nada disso.
O Pablo, além de nosso guia, também seria nosso cozinheiro. Preparou um arroz temperado que comemos com muita vontade. Também fizemos chá e café para beber junto. Só que a água acabou, e ele juntamente com o Alexei e o Aba, foram aproveitar a linda noite para buscar mais água. A lua estava cheia e o céu estrelado.

A preocupação em sempre buscar água era em razão de melhorarmos nossas condições de aclimatação à altitude. Se não estamos bem hidratados isso fica impossível. O que acontece é que como temos menos oxigênio no ar, o corpo gera mais glóbulos vermelhos para tentar carregar mais O2. Isso faz com que o sangue fique mais espesso. Então tomamos muito liquido (cerca de 5 a 6 litros por dia) para reduzir isso. Outra coisa que acontece é que o cérebro aumenta o calibre dos vasos sangüíneos para compensar a diminuição de oxigênio. Isso faz aumentar a pressão intracraniana e logo temos as dores de cabeça.
Para tentar minimizar esses desconfortos, desde minha decisão de ir, comecei a utilizar suprimentos que ajudariam na vascularização dos músculos. Não sei se isso funcionou, mas não tive praticamente nenhum sintoma de mal de montanha (é assim que chamamos as reações do organismo quando exposto a essas situações). Nos meus exames também demonstravam que eu tinha uma condição muito boa para a montanha. No hemograma aparecia que eu estava com um volume globular acima dos 48%. E isso é um número incrivelmente bom.
Essa primeira noite para mim foi tranqüila apesar do aperto. Nossa barraca era para 3 pessoas (para diminuir o peso que teríamos que carregar), mas estávamos dormindo em 4 caras, sendo que nenhum deles era pequeno. O Pablo dormiu sozinho tranqüilo em sua barraca. Eu só levantei umas 2 vezes à noite para o xixi. Também para facilitar o processo de aclimatação eu estava tomando um diurético. Outro efeito da montanha é o nosso organismo começar a trabalhar mais devagar (e em alguns casos até parar). O diurético fazia com que pelo menos os rins continuassem normalmente com sua função de eliminação de toxinas.

A alvorada estava marcada para as 9h, mas com um lindo sol as 8h todos estávamos de pé. Após um rápido café da manhã desmontamos o acampamento e seguimos em direção ao segundo acampamento: El Salto, distante 6 horas de caminhada e a 4.400m de altitude. Antes de partir algo aconteceu que já nos chamou a atenção e nos deixou um pouco preocupados: o Abayuba não estava passando bem e vomitou um pouco logo após o café. O Alexei também relatou uma leve dor de cabeça. Mas eles ficaram bem e seguimos nossa jornada.

Avalanche!!!!

Com a mochila com a regulagem correta minhas costas não incomodaram. Mas o trajeto foi bem pesado. Já passamos por alguns trechos com neve. Aqui vale lembrar que o Pablo nos orientou a deixar as botas de caminhada em Mendoza e já sairmos com as botas duplas. Isso foi bom pois não tivermos de carregar as botas na mochila, o que nos liberou 5 kg e espaço (na minha mochila não iria caber de maneira alguma).
No caminho levamos um susto. Ao passar por um vale coberto de neve escutamos um estrondo. De nossa esquerda uma pedra descia rolando em alta velocidade. Vinha na direção minha e do Alexei. Mesmo com o peso consegui apressar o passo e subir alguns metros rapidamente. Sempre olhando para a rocha e vendo qual a direção ela tomaria. O Alexei ficou parado observando para ver também para onde deveria fugir. Ela passou alguns metros atrás de mim, diminuiu a velocidade e começou a deslizar na direção do Alexei, parando a alguns centímetros. A pedra não era muito grande. Talvez com meio metro de diâmetro, mas era suficiente para causar algum estrago em nós e comprometer a expedição.

Após o susto prosseguimos caminho. Chegamos a um trecho chamado de Infernito. Era uma crista de rocha, com neve e gelo dos dois lados. Como o tempo variava muito, ora frio com as nuvens, ora quente com o céu aberto, sentíamos muito desconforto. Bem próximo ao acampamento tivemos um trecho bem difícil, passando por escarpas totalmente cobertas de pedras. Isso fazia com que deslizássemos. Tínhamos de nos segurar ou acabaríamos rolando até o vale abaixo.

A visão de El Salto foi um grande alívio. Estávamos muito cansados e com fome. Rapidamente montamos nossas barracas e descobrimos onde conseguir água. O jantar foi a base de polenta com queijo e molho de tomate. Comíamos por obrigação. Também a falta de apetite é um sintoma de mal de montanha. Mas sem nos alimentar não teríamos energia para os dias seguintes. O Aba logo se recolheu. Ele tossia um pouco e chegou a vomitar mais uma vez. Estávamos ficando preocupados com ele.

Mais uma noite sem dormir por completo. Levantei para o xixi da madrugada. Mas tive como presente uma noite linda e clara. Ao longe podíamos ver as luzes de Mendoza. O sol também começava a nascer, tornando tudo incrivelmente lindo.

Nesta noite eu passei um pouco mal. Por incrível que pareça eu estava com muito calor! Apesar da temperatura negativa, próximo de -10, eu suava muito. Estava usando equipamento muito técnico. As roupas da SOLO são impecáveis e de qualidade inquestionável. Estava também com um saco de dormir para -22 graus. Somando tudo isso com o ambiente recluso da barraca, eu me sentia em uma verdadeira sauna.

Bola de neve

O dia seguinte seria de descanso. A única tarefa eram os testes com os crampons e piolets. Estes equipamentos seriam de fundamental importância se encontrássemos gelo pelo caminho. Aprendemos a vestir os crampons e como caminhar com eles. Também fizemos simulações de quedas, onde o piolet deveria ser usado para freiar a descida. Foi um momento bem lúdico onde demos muitas risadas.

Praticamente durante todo o dia o Aba não saiu da barraca. Aliás, saiu sim: para vomitar. Chamei o Pablo para uma conversa particular. Discutimos a situação dele e o que poderíamos fazer. Eu disse que se fosse preciso para a segurança dele, que desceríamos naquele mesmo momento. Nenhuma montanha vale o risco de colocar a vida de um companheiro em perigo. O Pablo disse que continuaria a observar e decidiria o que fazer no momento certo. Neste mesmo dia ele foi a nossa barraca e nos explicou tudo o que poderia acontecer. Ele, como nosso guia, tomaria todas as decisões para nossa segurança. Nos daria as opções disponíveis e nós decidiríamos. Mas ele sempre teria a palavra final. Para tentar ajudar o Aba ele preparou algumas garrafas de chá e pediu que ele bebesse tudo. A todo momento ele ia na barraca para ver se ele não estava dormindo (sonolência é mais um dos sintomas do mal de montanha). Se isso acontecia, ele o acordava e fazia com que se concentrasse em beber.
Nosso jantar foi purê de batatas. Depois de comer tive um pouco de náuseas. Relatei ao Pablo que sempre que comia algo isso acontecia. Meu corpo estava se esforçando para se aclimatar, mas o trabalho era lento. Felizmente foi só este sintoma que eu tive, rapidamente combatido com remédios.
O plano do ataque ao cume para o dia seguinte era basicamente: acordar cedo, avaliar as condições climáticas, se preparar e sair para a caminhada levando apenas o essencial.

Um dia perfeito

O Pablo acordou as 3 horas da manhã e viu que tínhamos um excelente dia pela frente. Era 13 de novembro, um dia antes do Dia Mundial, mas tínhamos de aproveitar o bom tempo, que poderia mudar e ficar ruim por vários dias. Enquanto ele fervia a água para o café, colocávamos as roupas e saiamos da barraca. Eu fui o primeiro a sair e me deparei com um céu estrelado, com uma lua cheia maravilhosa que deixava as escarpas nevadas com um brilho prateado estonteante. Por volta das 4h30 todos estavam prontos e começamos a caminhada. A temperatura deveria estar próxima de -15 graus. Não é tão frio como parece. Caminhando o corpo se aquece. Somente as extremidades sofriam. Para não congelar os dedos das mãos estávamos com 3 luvas. Mesmo assim sentíamos muita dor por causa do frio. O Pablo nos orientou para ficar o tempo todo mexendo os dedos para gerar algum calor adicional.
O dia foi clareando, mas estávamos andando em sombras, o que fazia com que o calor do sol não nos atingisse. Depois de uma hora e meia fizemos uma primeira parada para beber algo. Eu estava com uma sede incrível. Ao beber a água que estava na mochila reparei que já tinham se formado cristais de gelo nela o que demonstrava o quanto de frio estávamos recebendo.
O caminho tinha uma inclinação muito grande. Muitos trechos de neve eram vencidos com lentidão. Onde existiam pedras e a inclinação era grande a dificuldade era maior, pois patinávamos muito. Caminhar na neve era muito mais fácil. Mas a beleza do lugar compensava qualquer sacrifico. Muitas pessoas não entendem como algo branco, da neve, e marrom, das pedras, pode ser belo. Só estando lá para entender isso. Acima de nós víamos o Vallecitos cada vez mais próximo.

Até mesmo uma nevasca, a primeira e única da expedição, nós pegamos quando uma nuvem nos encobriu. E eu adorei aquilo. Comentei com todos que uma expedição de alta montanha não tem graça se não pegarmos neve. O Pablo só completou dizendo que era realmente mais interessante quando tínhamos todos os "condimentos". Nossos altímetros já marcavam mais de 5100m. Mas estávamos muito exaustos. Ninguém queria dar o braço a torcer e dizer que não conseguiríamos. Foi quando o Alexei falou que estava extremamente cansado e com um sono incrível (isso vai também para o mal de montanha, já em uma fase grave de principio de edema cerebral).

Ele disse que não sabia se conseguiria. Tínhamos pela frente no mínimo mais duas horas para o cume e depois ainda a volta para o acampamento.
O Pablo tentava nos animar, mas estávamos perto do limite de nossas forças. Sair de pouco mais de 4200m e chegar a 5500m é uma variação muito grande.

Caminhamos mais um pouco e decidimos ali mesmo que não poderíamos alcançar nosso objetivo primário. Resolvemos deixar nossas mochilas e subir até Portezuelo onde poderíamos tirar nossas fotos de nosso novo cume e objetivo. Com mais 10 minutos (próximo do meio dia) chegamos lá e realmente foi muito emocionante. Estávamos a 5310m, que era a altitude máxima que qualquer um de nós 4 já tinha atingido. Estava tudo nublado, mas tiramos nossas primeiras fotos e nos abraçamos muito cumprimentando cada um pela conquista. E para nossa surpresa, e que não é raro na região, o tempo se abriu e ao longe víamos o destaque do horizonte: o Aconcagua. Dava para entender porque o nome da montanha, que queria dizer "Sentinela de Pedra". Ele era imponente e único com seus 6962m. Olhávamos para ele e já começava a brotar o desejo de em breve estar aceitando o desafio de atingir seu cume. De onde estávamos víamos o cume do Vallecitos que parecia muito próximo, mas seriam 1h30 para alcança-lo. Infelizmente não foi desta vez.
Com as últimas fotos (as câmeras começaram a parar de funcionar por causa do frio que acabava com a carga das baterias) começamos nossa descida. Tínhamos gasto quase 7h30 para chegar ali. Esperávamos que a descida fosse mais rápida e fácil.

No automático

Na teoria a descida é mais fácil. Mas não podemos esquecer que a maioria dos acidentes em montanha acontecem na volta. Se o montanhista não sabe dosar as energias na subida, reservando algo para a volta, realmente pode ser um problema. Assim foi sábia nossa decisão de não prosseguir mais e tentar os 5500m.
Nossa água já tinha terminado. O Pablo tinha nos instruído, com a intenção de que carregássemos o menor peso possível, a levar 1,5 L cada um, o que foi insuficiente até mesmo para a subida. E o tempo variava entre um total nublado que não nos deixava ver a 20 m na nossa frente, a um sol de rachar. A sede era enorme. Começamos a tentar saciá-la comendo neve mesmo. Ela não hidrata, pois é pura e não contem os sais minerais que são agregados a ela quando corre pelos rios. Mas conseguíamos enganar a garganta. Com o calor comecei a tirar meus agasalhos. O Pablo dizia para não fazer isso, pois com qualquer nuvem a temperatura cairia rapidamente. Não dei ouvidos a ele e tive problemas quase chegando ao acampamento.
Alguns trechos que foram bem fáceis de subir estavam mostrando sua dificuldade para descer. O risco de um escorregão ou tombo era grande. Então resolvemos botar a bunda no chão e descer fazendo "esqui bunda". Funcionou, além de ter sido bem divertido.
Para mim a descida estava sendo muito dolorida. Os pés escorregavam dentro da bota o que fazia com que os dedos fossem sofrendo impactos. A dor era tanta que eu não conseguia caminhar na velocidade do grupo. Muitas vezes ficava bem para trás e todos tinham de me esperar. E não podíamos demorar. Não tínhamos água, o Aba estava sofrendo muito com seu mal de montanha e todos estavam muito exaustos. Comecei a andar no automático. As pernas as vezes não obedeciam muito ao comando.
A visão do acampamento foi um grande alívio para mim. Chegamos próximo das 16h30. Havíamos feito a descida em 4 horas. Chegando lá o Aba se recolheu para descansar, o Pablo e o Alexei foram buscar água, o Anibal ficou arrumando algumas coisas para poder entrar na barraca e eu não tinha mais forças para nada. Deitei ao lado da barraca encostado em uma pedra. O Anibal pediu para eu entrar na barraca por causa do frio, mas eu nem conseguia me mover direito. Devo ter ficado uns 10 minutos planejando o movimento para ir até a barraca que estava ao meu lado. Minha cabeça também já doía, provavelmente pela desidratação e exposição a tão grande altitude.
Quando voltaram com a água eu consegui me levantar e ir descansar. Bebemos um pouco de chá e fomos dormir. Só mais tarde é que fomos comer algo e conversar sobre o grande dia.
No dia seguinte (14 de novembro - Dia Mundial do Diabetes) acordamos com um barulho incrível do vento. Estava tão forte que não podíamos sair da barraca para nada. Ficamos felizes por ter feito a troca do dia do ataque ao cume para a data anterior. Se não aproveitássemos o dia perfeito que tínhamos, neste dia 14 não seria possível nossa tentativa.

Ficamos na barraca até as 10h, quando o vento diminuiu um pouco e pudemos sair para desmontar o acampamento e iniciar a volta. Fizemos a caminhada direto de El Salto até o estacionamento da Caminhonete e de lá já seguimos para Mendoza. Então saímos de 4400m e chegamos a 700m no mesmo dia. Esta descida foi no meu limite. Meus pés doíam muito e eu não conseguia fazer o mesmo ritmo dos outros. Fui colocado como segundo da "fila" para seguir os passos do Pablo que ia guiando e também para que a velocidade de todos não fosse muito maior do que a que eu conseguia acompanhar.

Em Mendoza fomos direto para a clínica média do Dr. Martin. Fizemos alguns exames rápidos para ver se estava tudo OK. Fui me pesar e tinha perdido 3,5 kg nos 5 dias que passei na montanha.
Ele nos convidou para dormir em sua casa de montanha nas proximidades de Mendoza. Aceitamos o convite e fomos para lá, onde fizemos um assado típico de Mendoza para comer e bebemos algum vinho. Conversamos muito sobre tudo o que passamos e o que aprendemos nesses dias de convivência.
No dia seguinte o Aba já voltou para Buenos Aires de avião. O Alexei iria ficar mais alguns dias em Mendoza e depois passaria um tempo no Chile. Sobramos eu e o Anibal para voltarmos levando a caminhonete de volta. Antes disso o Pablo nos convidou para uma pizza na casa dele. E ele e sua bela família nos acolheram como grandes amigos e passamos horas muito agradáveis tomando vinho e assistindo filmes de montanha, é claro.

Valeu a pena? Mas é claro! Que venham os 6962m.

Acredito que indo para Vallecitos eu atingi o objetivo que queria. Lembrar de algumas coisas, esquecer de outras, ficar em sintonia direta com a natureza, alinhar novamente meus pensamentos para grandes objetivos, ter uma alegria que pouca gente entende, ver até onde meu corpo conseguia ir naquelas condições, passar momentos muito agradáveis com pessoas muito especiais, ser mais eu, me desligar um pouco desse nosso louco mundo. É impossível que qualquer pessoa volte igual depois de uma experiência como essa. São essas mudanças, as vezes sutis as vezes não, que tornam a vida mais interessante.
Agora é torcer para o projeto Bandera al Cielo continuar. O próximo desafio é o Cruce de Los Andes (http://www.crucelosandes12x42.com.ar). Esta é uma corrida a pé de 504 km, que se corre em equipe de 12 corredores e atravessa os Andes do Chile até a Argentina passando por uma altitude máxima de 4722m, entre os dias 6 e 8 de fevereiro. Ainda não sei se estarei no time, mas estou treinando para isso.
E para janeiro de 2010 o nosso grande objetivo final: a ascensão do Aconcagua. Com seus 6962m é a montanha mais alta do mundo fora do Himalaia. Desde já estamos sonhando com isso. Tudo o que aconteceu no Vallecitos foi um grande laboratório para testarmos o que teremos de fazer para ter sucesso no Aconcagua. A expectativa é de pelos menos 2 semanas de expedição. Vai ser bom demais!!!

Categoria 4?

Durante o segundo dia na montanha comecei a sentir algo estranho em minha visão. Tudo estava ficando um pouco nublado. Como já tinha passado por isso em outras 2 oportunidades (acampamento base do Aconcagua - 4300m e em um dos  IronMan Brazil que participei) não esquentei muito com isso. No dia do ataque ao cume estava tudo muito pior. Na descida juntava minha visão nublada com uma nuvem de verdade e ficava difícil ver muito longe. No dia de sair da montanha os olhos estavam muito irritados e vermelhos. Eu já tinha tirado a lente de contato um dia antes, mas ao tentar colocá-la ficava pior. E com dias muitos ensolarados e muito reflexo na neve eu tinha de ficar com ela de qualquer maneira e usar o óculos de sol. Com muito sacrifício e paciência dos demais, eu consegui descer a montanha e chegar a Mendoza. Pedi ao Dr. Martin algum colírio para irritação e esperava que no dia seguinte estivesse melhor. E piorou muito. Não tive escolha senão ir para uma consulta de emergência. Com a indicação de um médico e uma clínica fui lá ver o que era. Eu estava com muito medo que pudesse ser algo relacionado ao diabetes e que fosse permanente. O diagnóstico foi rápido: uma enorme úlcera de córnea, abscesso, edema e inflamação. É por isso que eu não conseguia ver quase nada. Eles queriam que eu ficasse lá para mais exames e eu me neguei. Antecipei minha volta para o Brasil e fui aos meus médicos daqui.
Novos exames por aqui e descobrimos que eu estava infectado por fungos e amebas. Meu olho era um zoológico. Com duas palavras com os médicos descobrimos a razão: lentes de contato. Elas não são recomendadas para se usar nas altitudes que eu estava em razão do ar muito seco. Para ajudar eu estava dormindo com elas a mais de 10 dias. Tudo errado. O pior foi descobrir depois tudo isso. Lendo um livro sobre o Aconcagua (só depois que voltei) que tinha tudo isso descrito. O resultado disso para meu olho variava entre apenas uma cicatriz e candidato a transplante de córnea. Fiquei bem assustado com isso. Fui melhorando aos poucos, mas eu não conseguia ler. E estava em semana de provas na faculdade. Felizmente os professores foram muito receptivos ao meu problema e fizeram prova oral e também uma escrita com tamanho de fonte bem grande. Agradeço demais a eles por isso. E quando estava quase curado de tudo isso ainda peguei conjuntivite, que se espalhou por toda a minha família.
Os meus óculos de sol que levei devem ter certa culpa nisso também. Como ele é, aliás, era daqueles de camelô (eu os usava pois se ele caísse ou quebrasse eu não sentiria falta) sua lente não tinha os filtros necessários para proteger meus olhos. O engraçado, ou trágico, foi no dia que voltei da montanha, quando fomos devolver os equipamentos alugados na loja de montanhismo a vendedora viu meu olho vermelho e comentou: "Nossa, você queimou o olho. Deveria ter usado um óculos categoria 4". É que negócio é esse? Descobri que os óculos são divididos em categorias conforme seu grau de proteção. Pata altitudes acima de 2500m deve-se usar a proteção máxima por causa do grande reflexo que a neve faz dos raios solares.
Isso é a justificativa por eu ter demorado tanto para escrever este relato.

Como eu disse tudo foi um grande aprendizado para quando formos ao Aconcagua:

 Não dormir com a lente de contato;
 Não usá-la em grandes altitudes;
 Usar um óculos descente, que custa muito menos do que a fortuna que gastei com o meu tratamento.

Os meus óculos de camelô, e também os de todos aqui de casa, já foram para o lixo. Hoje uso um categoria 3, que é o indicado para uso urbano e trilhas até 2500m.

3000m

Quando nosso time resolveu ir para essas altitudes, resolvi pesquisar o que podia fazer para cuidar bem do meu diabetes por lá.
Será que minha bomba de insulina (Sistema de Infusão Continua Roche Accu-Chek Spirit) suportaria? Perguntei ao pessoal da Roche até onde ela tinha sido testada. A resposta foi 3000m. Então eu disse que testaria a minha a mais de 5000m para ver o que acontecia. Eles não permitiram. Não dava para correr qualquer risco, e foi uma atitude muito acertada.
Desinstalei a bomba antes de ir para a montanha e passei a usar as canetas Novo Nordisk FlexPen com insulinas Levemir e NovoRapid. Estava indo tudo bem assim até que na segunda noite eu acordei umas 4 vezes não me sentindo bem. Media a glicemia e ela estava muito alta. Fazia uma correção com NovoRapid e esperava pela sua ação. E a glicemia não baixava. Só na manhã seguinte é que fui descobrir que eu não estava aplicando a insulina. Provavelmente por causa da altitude o êmbolo da caneta recuava um pouco. A solução foi simples: antes de aplicar eu colocava algumas unidades e apertava o êmbolo até que saísse uma gota de insulina da agulha.

Com o monitor foi o mesmo. O meu principal era um Roche Accu-Chek Performa. Usei-o quase que todos os dias que estive por lá. Mas um dia fui fazer um teste e comparei com o resultado de outro aparelho. A diferença foi muito grande. Mas como eles usam tecnologias diferentes de medição isso explicaria. Só não sei qual estaria certo ou menos errado. E consultando o material sobre eles, novamente a altitude "mágica" de 3000m para o seu funcionamento.
Outra preocupação era o frio congelante em nossa medicação. Minha solução foi desenhar um colete que eu usava por baixo de todas as outras camadas de roupa. Nele haviam vários bolsos onde eu deixava o monitor de glicemia, as canetas de insulina e a injeção de Glucagen (para alguma emergência).
Ainda falando do diabetes, o que fizemos na montanha foi muito interessante. Mediamos várias vezes ao dia nossas glicemias e as registrávamos. Também fazíamos medições de cetona e de pressão sanguínea. Tudo isso foi entregue para o Dr. Martin. E o Pablo não poderia ficar de fora. Ele participava de toda a nossa rotina. Media glicemia, cetona, pressão. Ele foi nosso "paciente de referência". Acredito que essas informações serão bem importantes para comparar com nossos resultados.

Equipamentos Principais

O que usei:
 Shell: Anorak Conquista Chamonix e calça de alta montanha impermeável Conquista;
 1ª pele - Camisa e calça SOLO X-Thermo;
 2ª pele - Camisa SOLO Nordic e calça SOLO Expedition;
 Luva - 1ª camada = SOLO Liner; 2ª camada = luva de plumas com cobertura stopwind (alugados);
 Botas - Duplas - alugadas;
 Meias: liner + 2 SOLO Summit;
 Balaclava Quechua;
 Mochila Conquista Arpia (75+15);
 Bastões de caminhada - alugados;
 Saco de dormir: Deuter -10 a -22;
 Sensor climático Guepardo (altímetro, barômetro, termômetro).

Agradeço a todos que de alguma forma me apoiaram para realizar mais este grande desafio. Sei que muitos puderam ficar apenas na torcida, mas garanto que esta energia chegava até mim.
Agradeço a todos que me agüentaram no período de preparação, onde o meu papo era só montanha. ?
Também agradeço as empresas que sempre me apoiaram (Roche e Novo Nordisk). Sem os seus produtos de qualidade ficaria muito mais difícil fazer o que eu faço. E também a SOLO por nos apoiar com seus materiais de qualidade inquestionável.

 
     
   
  < Voltar  
     

SAC

 
© SOLO 2009
Todos os direitos reservados